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A loucura dos bem intencionados

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Escrito por Gabriel Galo

Maísa é menina de 13 anos, estudante de série proporcional em grande colégio em área nobre na grande São Paulo. Maísa é extremamente inteligente, muito mais madura para a idade dela do que a média de seus colegas. E, como tantos casos, Maísa está em dúvida sobre sua sexualidade. Em conversa na escola com sua colega, Maísa diz que acha que ficaria com a amiga, que acha ela bonita. O que vem a seguir é uma verdadeira tempestade em copo d’água.

A mãe de Maísa é chamada na escola para conversar sobre a “atitude” de sua filha. Diz que sua filha está constrangendo as colegas, que a amiga se trancou no banheiro de medo (de quê?) e o pior vem a galope: que os pais das outras crianças estão EXIGINDO a expulsão da menina por “mau comportamento”.

Como se não bastasse, Maísa também convive com um pai altamente homofóbico. Frases como “por mim, todos os gays têm que morrer” não são dificilmente ouvidas dentro de casa.

Assim, tem-se que durante a fase de transição de criança para adolescente, na etapa de formação de sua sexualidade, a garota está numa encruzilhada. Dentro de casa, a certeza da não aceitação; fora, a dureza da exclusão sumária.

Qual o futuro que está sendo construído para Maísa?

De uma só vez, ela percebe a mensagem do mundo: “não temos lugar para você”. Imputa-se a característica de aberração para alguém que ainda está se descobrindo.

Poderíamos pensar no papel que a escola poderia exercer neste cenário. Iniciar um trabalho de inclusão e debates sobre diversidade, abrangendo professores e funcionários, alunos e pais. Mas não, prefere omitir-se pela necessidade de capital, afinal, como agir quando tantos ameaçam sair em massa?

E a mãe? É o que você deve estar pensando, certo?

Divorciada do pai, tem como preocupação principal manter a polpuda pensão que recebe. Omite-se, no mesmo tanto, e não sabe como agir.

Muito já se evoluiu neste tema no Brasil, temos de admitir. No Domingo último, São Paulo, uma vez mais, abriu-se para a Parada Gay na Avenida Paulista. No entanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Porque muitos hoje aceitam que existam homossexuais no mundo externo, mas dentro de casa a banda toca outra música. Quando nos deparamos com um caso como este, vê-se que, na verdade, os pretensos defensores da moral e da ética querem fazer do alheio a extensão de sua sala de casa.

Em nome dos bons costumes, ensinam intolerância.

Em nome da família, negligenciam a própria.

Em vez de aceitação e apoio, fundamentais para construir relações de confiança, oferecem repressão.

“Em Roma, como os romanos!”

Quantas Maísas não existem por aí? Quantas dessas vão crescer para se verem sozinhas, treinadas para recusarem-se a si mesmas?

A segurança da humanidade foi obtida pelo agrupamento de semelhantes; a evolução, no entanto, foi embasada na diferença. Conceito praticamente impossível de ser assimilado pela maioria.

É importante perguntar: quem há de calar e abalar a ignorância carregada de ódio dos bem intencionados?

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça. Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e personagens fascinantes.

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