Caderno 2 Contos Destaque

À moda antiga

GPGALO_MENINASECA
Escrito por Gabriel Galo

Josefa não conseguia precisar há quantos anos trabalhava na casa do Macedo e da Dona Catita. Mistura de tempo demais com a dificuldade de lidar com contas de matemática.

- Desde 89. Isso dá quanto tempo?

- Vinte e oito anos.

- Então é isso. Vinte e oito anos.

A CHEGADA

Chegou vinda do Vale do Jequitinhonha com nada muito além do que a roupa do corpo. A empregada dos vizinhos implorando para que a sobrinha tivesse uma oportunidade de mostrar serviço.

- Apesar da pouca idade, tem uma disposição que só ela!

E a menina sorria encabulada.

Tinha 13 anos recém-completados quando foi apresentada à Dona Catita. De escola só tinha ouvido falar. A vida no sertão precisava de mãos para arar a terra seca, não de cabeça feita para criar bobagem, como se o esforço despendido fosse fator determinante para que chovesse. Fosse isso verdade, o sertão já tinha há muito virado mar.

Quem a conhecia pensava ser muda. Em cada cômodo entrava quieta e saía calada. Acostumada a portar-se cabreira, sabia colocar-se no seu lugar, sempre o mais baixo, o mais invisível, o mais inaudível.

Arrumaram a dependência de empregada para que Josefa lá chamasse de morada. O espaço, diminuto e sem ventilação, fazia-se seu palácio por conta da sua altura nunca nem próxima à média, baixinha que era e continuou sendo.

Com a adaptabilidade evolutiva que os de mãos com calos duros obrigatoriamente carregam, rapidamente estava ciente da rotina da casa. Começava com o sol quase nascendo e acabava depois que todos tivessem ido dormir e a cozinha estivesse impecável.

Às visitas, os Macedo diziam que tinham pegado ela para criar.

- Chegou aqui em casa sem ter onde cair morta. Hoje está aí de braço gordo, acho que anda comendo demais!

Entendia ela que os patrões precisavam criar a imagem de pessoas cristãs e do bem, e faziam palanque sobre os seus ombros arcados e as suas castigadas costas de menina.

Em pouco tempo, era provável que fosse a única dos 9 irmãos a continuar viva. Durante todo o período certamente foi a única a dormir numa cama, a ter banho quente e comida na mesa – mas depois dos chefes, isso era importante -, a conhecer mais do que o árido do piso craquelado da caatinga mineira.

No dia-a-dia observava com candura a pequena Lígia, filha do casal, que brincava com suas bonecas, não uma nem duas, mas tantas. Sonhava com o dia que teria uma boneca para chamar de sua. “Vai chamar Maria”, pensava, olhos pregados no teto de quem se contenta com devaneios, “que nem minha mãe.”

A pequena madame uma vez a chamou para brincar. Ela foi, que alegria!, para ser duramente repreendida por Dona Catita. “Ora, que atrevimento, negrinha!” e pôs a pobre para correr. A dureza das relações de poucas palavras criou escudo que se alimentava das humilhações que sofria. Não chorou, mas quis, até fez menção. Encontrou na pilha de louça para lavar o refúgio para espairecer.

No seu aniversário de 14 anos ganhou um tênis de presente e um vestido florido.

Sorriu, sentiu-se feliz, emoção rara que sentiria, como na primeira vez que o mar molhou seus pés. Não imaginava aquele mundo de água. Tinha aprendido que o pouco era muito quando comparado com o nada. Se assim era, e o muito, quanto haveria de ser?

A DESPEDIDA

Nascida em pleno semiárido do Vale do Jequitinhonha, era o oitavo filho, única mulher, de nove irmãos. Destes, três já tinham falecido quando Dona Maria soube da oitava gravidez em dez anos. Mesmo se se esforçasse, a mãe não seria capaz de lembrar de um momento não grávida. Os meninos chegavam aos borbotões, e mal uma barriga se esvaziava, enchia-se-lhe o bucho novamente. No quintal, umas galinhas, uma vaca que morreu na seca e a plantação.

O marido saía logo cedo, tão logo sol houvesse, com seu arado a abrir a terra e impingir-lhe sementes, que era item quase tão raro quanto água por aqueles lados. Quando um dos dois acabava, despedia-se do roçado e caminhava por horas até o vilarejo mais próximo, em busca de um balde molhado até a borda e de um punhado. Vez ou outra voltava bêbado, e fazia do couro de Dona Maria seu tronco de aferição de poder. Se não podia com as coisas de Deus e dos homens, em sua casa mandava ele.

No dia de vir ao mundo Josefa, chegou uma vez mais embriagado à casa de taipa que abrigava gente em cima de gente. O choro da menina recém-nascida tomou-lhe o juízo, começou a exigir da mãe que calasse a menina. Já cansado de barulho, levantou-se, “se não cala por bem, cala por mal”, no que o irmão mais velho interpôs-se-lhe o caminho. Avexado pela valentia inesperada do rebento, tratou de pegar a primeira coisa que viu pela frente.

- Tome jeito, criatura!

O barulho seco de encontro à cabeça ecoou pela sala, para desespero de Dona Maria, que nada pôde fazer pelo filho, já morto, que ensanguentava o piso.

- Melhor você é limpar agora essa bagunça. – retrucou ele e tornou a deitar.

Assim se deu que o nascimento de Josefa foi uma troca: da morte pela vida.

A cria era braço na condução do arado, na plantação de semente, na busca por água em vilas ou caminhões pipa. Nada além do que isso. Talvez fosse até pior que gado, no que gado dá leite e carne e menino só despesa.

Tudo era secura: o tempo, o terreno, a boca, o tato.

A dureza da alma crescia na medida dos calos nas mãos.

E, condição que viria a dar frutos no futuro, aprendeu a primeiro obedecer e sempre calar-se.

- Não se estrepa quem quieto fica. – dizia-lhe sua mãe, protegendo a única mulher da fúria do pai.

Em seu aniversário de 13 anos, percebeu-se em casa sem o pai, que tinha ido à cidade em busca de mais uns dias de vida. Na caatinga é um dia por vez. Sua mãe apronta-lhe uma pequena trouxa; tem pressa. Não entende bem o que sucede, mas cala-se pelo medo da coça.

A mãe nada lhe diz, mas vê-se que chora.

Junta os poucos e desfiados trapos num pano, dá-lhe um nó, segue porta afora. Ao se ver sozinha, Dona Maria vira-se para dentro e brada para Josefa:

- Vambora, criatura.

Caminham por hora e mais até uma estrada remota. Em pouco tempo, um ônibus para no canto da estrada. A mãe tira um pedaço de papel do bolso, entregando-o à menina, junto com umas amassadas notas de dinheiro.

- Vá até esse endereço, pergunte para as pessoas como chega. Sua tia está te esperando.

Controlando-se para não desabar em lágrimas na despedida, abraça a filha com força, possivelmente o primeiro abraço da pequena Josefa.

- Vá e não volte nunca mais.

Deu-lhe as costas, e nunca mais se soube o fim que ela teve.

O MOTORISTA

Pongou no ônibus com os parcos trocados que tinha em mãos. Esticou a mão ao motorista, que pegou o pequeno pedaço de papel amassado. Leu o endereço, olhou para a menina, olhou uma vez mais para o papel. Percebeu, na segunda olhada para a pequenina, o desespero represado em seu rosto. “Pergunte para as pessoas”, apenas lembrava a menina.

- Basta fazer o que eu mandar, ok?

A isso ela já estava condicionada. Obedecer calada era sua melhor e única qualidade.

Na primeira parada, primeiro almoço, ela o seguiu um ou dois passos atrás. Pediu um PF para ela, outro para ele.

- Quer carne, frango ou calabresa?

Nem imaginava que existiam opções. Quanto luxo! Deu de ombros, para receber um de frango dali poucos minutos. Sobre a mesa de madeira da parada simples na estrada, um copo d’água para cada. O prato que lhes foi servido brilhava na frente da garota, que nem teve tempo de reagir, avançando com as mãos, como bicho.

- Calma, menina! Parece que nunca comeu na vida.

Ela parou olhando cabreira para ele, boca cheia de alimento, cabeça ainda inclinada para baixo. Daquela monta, e ainda com carne, nunca tinha experimentado. Era algo inteiramente novo para a esfomeada tão nova, mas já sobrevivente. Percebendo a complexidade do que se apresentava em sua frente, ele juntou o máximo que poderia oferecer de doçura, empurrando garfo e faca na direção do prato da pequena.

- Assim, ó. Faz como eu faço, tá bom?

Ela assentiu com a cabeça. Observava atenta a cada movimento do motorista, e tentava replicar, com a habilidade incipiente que possuía. Vez ou outra ele ria, o que fazia a garota franzir a testa em reprovação. “Desculpa,” falava ele.

- Afinal de contas, você não vai me dizer o seu nome?

Essa resposta ela sabia, mas com a boca cheia de farofa, ensaiou um “Josefa” cuspindo farinha na mesa e no prato do motorista. Acuada, encolheu-se esperando o tapa, que não veio. Em vez disso, ouviu uma risada em alto e bom som. Ela foi se deixando contagiar, e pela primeira vez sorria de verdade, querendo.

Ele encheu a própria boca, “Josefa!”, espalhando farinha em cima da menina, que não se fez de rogada, “Josefa!” e tome-lhe farinha, de lá a cá e de cá a lá, para explodirem numa longa e libertadora gargalhada.

Esta foi a rotina durante os dois dias de viagem. Quando tinha sono, ela dormia. Quando a parada se avizinhava, ele a mandava se preparar. Quando ele tentava conversar, respondia apenas com suas expressões.

“Não se estrepa quem quieto fica”, revivia ela.

Em algum momento queria saber o que significava se estrepar, mas estava certa de que coisa boa não havia de ser.

Avistaram a rodoviária de São Paulo. A menina colou-se à janela maravilhada com o movimento, cores e gente da cidade grande. Viu um fusca amarelo zunindo pela Marginal e achou graça do estranho veículo. Foi despertada do transe por um leve toque no ombro do seu amigo motorista:

- Chegamos. Aqui a gente se despede, ok?

Ela retribuiu a fala com um aceno com cabeça em concordância, um tanto nervosa. Ela desceu do ônibus e parou congelada no meio do mundaréu de gente que ou ia ou vinha. O medo lhe escorria pelos poros, em profusão.

Sentiu uma vez mais o leve toque no ombro.

- Posso ver o seu papel de novo?

Ela esticou o papel já um tanto amassado outra vez para o motorista.

- Vambora, vai. Vem comigo.

Pararam numa banca, pediu um guia de ruas emprestado. Mapeou o endereço, pediu um pedaço de papel ao dono da banca, anotou o itinerário. Eram três ônibus e uma caminhada considerável. Ainda era manhã, mas já seria depois do almoço quando chegassem na casa de quem quer que a estivesse esperando. No caminho, a pequena adormeceu no seu ombro, escorregando pelo seu colo. Ele mirava o lado de fora, sem jeito de saber como poder tocá-la para um cafuné.

Acordou-a quando avistou aquele que imaginava ser o seu ponto final.

Desceram e caminharam os últimos trinta minutos de sua pequena saga agora de 2 dias e meio sem nada dizerem.

Encontrou o casebre onde se fazia morada do endereço anotado no roto pedaço de papel. Tocou à porta com três batidas, brevemente aberta por uma senhora que aparentava ter perto de seus 30 anos. A anfitriã lançou-lhes dúvidas e um “pois não?” sem muita paciência.

Ele, pacientemente, pediu o papel à menina e entregou à desconfiada mulher. Passados uns segundos, que pareceram horas, ela finalmente falou:

- Entra Josefa. Passa pra dentro.

A menina obedeceu, mas no caminho foi interrompida pelo motorista. Ele se agachou, abraçou-a. Desceu suas mãos paternalmente pelo cabelo da jovem. Grudou seus olhos no dela, os dele marejados:

- Se cuida, tá bom? E, olha – ele retira um pedaço de papel do bolso da calça – se algum dia você precisar de alguma coisa, pode me ligar ou me escrever.

A menina sorriu agradecida, mas que finalidade poderia haver, se nem seu próprio nome conseguia pôr em papel?

- Vamos, Josefa, que eu estou cheia de coisa pra fazer.

A menina olhou para a tia, de novo para o homem, que apenas acenou afirmativamente autorizando a entrada. Ela foi engolida pela porta do casebre, fechada sem nem um obrigado.

No dia seguinte era doada aos Macedo sob apelos falsamente lacrimejados da tia.

Experimentou em 3 dias o duplo abandono dos seus e a generosidade genuína de quem nada lhe devia.

O CRESCIMENTO

A vida no grande apartamento dos Macedo continuava na velocidade do crescimento da pequena Lígia e no ritmo de trabalho do Sr. Macedo. “Acho que ele não tem nome”, pensava sozinha a pequena Josefa “se tiver, deve ser um nome bem feio, ninguém gosta de falar!” A filha crescia e perdia o interesse nas bonecas, e a coitada perdia-se de desencanto por ver tantas e tão lindas sem atenção e carinho. “Um dia eu cuido de todas vocês!” dizia ela quando estava a limpar o quarto da menina. A interação variava de conversa animada até a estagnação tal qual estas estações de frango assado, a famosa televisão de cachorro. Pensa que talvez ela fosse um, e ali estivesse o inatingível obsolescendo-se, do tamanho de sua fome. Deu nome a cada uma das branquinhas de vestidinho, e nos seus asseios de empregada, conversava como suas grandes amigas que eram.

Os anos iam se passando e em Josefa percebiam-se crescentes atributos físicos. Da mirrada guria que chegava, não ganhou muito em altura, mas exibia cada dia mais uma bunda de fazer inveja. Era grande, redonda, dura, saltava aos olhos. Acompanhava-lhe as coxas duras de acrobata equilibrando-se nos pés de dez pras duas.

O olhar do Sr. Macedo logo se fixou nas curvas da “menina que pegou para criar”. Dona Catita observava atenta os olhares de lascívia do marido e resolveu punir quem estava ao seu alcance: a própria Josefa.

A pobre sequer tinha noção de seu dom natural, mas viu sua rotina se transformar num grande inferno. Sem capacidade de retrucar, aceitava o martírio que lhe era imposto. As humilhações foram ganhando em proporção, em estardalhaço.

Nas visitas que vinham em dia de festa, Dona Catita se queixava da impertinente em que ela havia se tornado. Sujava o chão, sádica, para ver a menina contorcer o pano depois de um serviço feito, mesmo que impecável estivesse.

O Sr. Macedo, no medo de descobrirem sua queda pela criada e também como ação de preservação do casamento, embarcava na onda da esposa, e sempre procurava uma maneira de terminar com um constrangimento tal que fizessem todos caírem em gargalhadas.

Já havia enfrentado sozinha o surgimento da puberdade, o que haveria de abatê-la?

Voltava para a área de serviço e lá sempre havia uma pilha de roupas sujas para distrair-lhe o pensamento.

A INVASÃO

Foi no dia seguinte ao seu aniversário de 18 anos que Josefa se fez mulher do pior jeito possível.

Já no adiantado da hora, depois de há muito todos já terem ido deitar, sentiu a porta do pequeno quarto se abrir.  Nele entra o Sr. Macedo, com a boca cheirando a bebida e a descabimento. Achega-se deitando na cama da menina sem licença nem permissão. Aninha-se no corpo da jovem, e inicia seu discurso enquanto beija-lhe a nuca:

- Você sabe que você deve pra gente, né? A gente salvou sua vida. Sem a gente você não seria nada. Agora chegou a hora de você dar um pouco de volta, entende?

Não entendia, mas a mão do patrão descia pelo seu corpo até o seu sexo.

Ele retira o short do pijama da menina, e numa estocada única, rompe-lhe a virgindade em meio a declarações de dívida eterna.

- Seja uma boa menina. Você me deve isso, Zefa… E que delícia de mulher você se tornou.

Em pouco tempo, sentiu o corpo do Macedo tremer num gemido satisfeito.

- Boa garota…

Ele se levantou, e ainda de costas para ela, sugeriu:

- Não esqueça de se limpar.

A menina ergueu-se para sentir escorrer por entre suas pernas a comprovação de sua subserviência. O sangue da primeira vez se misturava com o branco melado do prazer que só ele experimentou. Sentia-se suja por dentro, por fora, em alma. Correu para o banho e permaneceu debaixo do chuveiro por mais de uma hora.

Desta vez, sem poder controlar-se, chorou. Chorou o choro de uma vida, que se misturava à água que chorava o chuveiro, num choro conjunto e orquestrado.

Já não podia dormir. Perdeu a conta de quantas noites foi despertada impertinentemente pelo carente patrão, que parecendo imune às carícias que dispensava à criada durante a noite, tratava-lhe tão mal quanto qualquer dia. Dona Catita seguia fortalecendo os insultos, e até mesmo Lígia, 6 anos mais nova que Josefa, aprendia que com castigo e subserviência forçada se deveria tratar aqueles da casta inferior.

Não era de se espantar quando a barriga da mal-desenvolvida menina começou a crescer, acompanhada por enjoos e engorda. Dona Catita foi à loucura ordenando aborto instantâneo, mesmo com alertas de “não pode ser, será?” de seu marido.

Na dissimulação de Macedo e na má qualidade de sua atuação, Dona Catita encontrava a negativa que ansiava para fingir que nada havia mudado. Mas o que era único virou rotina. Durante os 28 anos, contou 6 terminações de gestações indesejadas.

Ela, no entanto, em um momento, passou a desejar uma criança. Alguém que saísse de dentro dela, dela dependesse, a ela amasse incondicionalmente.

Seu conceito de amor era estranho, variando da dependência à veneração, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

As recorrentes interações com o patrão confundiam a mente de Josefa.

Seria aquilo amor o que sentia?

Era amor aquele frio na barriga, aquela angústia, aquele desejo de tê-lo ali para ela?

Jamais poderia dizer ao certo, mas entendeu que crescia uma afeição por seu amante escondido. Mesmo sob a inundação de maus tratos e humilhações, quando Dona Catita se deitava, somente ela se fazia saber das carícias de Macedo.

No quieto de seu quarto raciocinava que eles não eram essa gente ruim toda que os outros diziam. Se ela havia chegado até ali e viva estava, era por causa deles.

Estes tantos pensamentos eram novidade para a agora mulher, acostumada que estava a só fazer conforme lhe diziam. Juntar e formar ideias era coisa de gente estudada, pois não. Estas sinapses tinham tom de descoberta, num ensejo um tanto juvenil. A fagulha da cabeça feita estava acesa, embora a chama ainda fosse leve demais para que se criasse.

Criada ali, apenas ela. Resignou-se.

A Josefa cabia cumprir sua profecia de nada ser, apenas existir, de cabeça baixa, quieta para não se estrepar.

DÚVIDA

Aos poucos, ideias diferentes, que antes conseguia chacoalhar com um balanço de cabeça e um pano para passar na cozinha, ficavam atormentando sua cansada alma.

Certa feita, atrevida, perguntou à Dona Catita se tinha carteira assinada. A patroa, sadismo disfarçado de voz suave e carinho forçado, disse-lhe que estavam fadados os 3 a seguirem juntos até o fim da vida. “É melhor para de ver o jornal pra não ficar tendo ideia”, recomendou a patroa. Pareciam destinados a ficarem lado a lado. Eles, vivendo; ela, sobrevivendo, se tanto.

Já havia uns meses que o Macedo não lhe chegava a chamegar carícias. Aliás, a rotina havia se alterado drasticamente quando imaginou, uma noite, ter visto Dona Catita de canto espiando enquanto o marido consumia a empregada. Se ela algo fez com ele depois, não poderia saber.

E pensava, “Será que a patroa viu? Não, claro que não, tivesse visto teria invadido o quarto aos berros.”

Se humilhação de monta se exibisse, estava certa de que ela conseguiria aguentar – era agora sua outra melhor qualidade, a resistência -, mas duvidava da de Macedo.

Enquanto isso, martelando seu pensamento, a dúvida do futuro, do passado, do presente. Era a tal da “cabeça feita criando bobagem”, e lembrou-se do pai com um calafrio de medo.

Começou a tomar contato com coisas que nunca imaginou existirem. Tinha pesquisado sobre esse tal de negócio de direitos trabalhistas, mas depois da última e única interação com a patroa, ficou receosa de mais questionar.

Apenas crescia dentro dela a certeza de um cansaço que minava suas forças como nunca antes. Estaria ficando velha? O tempo não havia sido generoso. Os traços da velhice haviam chegado já há muito.

Será por isso que Macedo já não lhe procurava mais?

Lembrou-se dos pais, mas sem medo, porque a mãe vinha junto. A esta altura imaginava que já os teria ultrapassado. De um jeito, ela era mais velha que eles, que seguramente já tinham partido.

Como teriam morrido? Duros pelo sol e pela seca? Valia-se da morte certa para fazer-se mais.

Foi tomando conta de sua alma um sentimento de inércia, de paralisia. De desgosto. De nojo.

Quem era ela, que nada conhecia, nada vivia, apenas existia?

Calou-se de vez no auge do drama de seus conflitos.

CATARSE

Naquela noite, depois de meses, Macedo voltou a invadir seu diminuto quarto. Culpa da tal da pílula azul de que tanto ouvia falar. A repulsa a fazia sentir vontade de vomitar, e ele a penetrou pela última vez. Depois de feito seu dever, “boa garota”, levantou-se e deu as costas recomendando a limpeza, como fazia absolutamente todas as vezes.

Ela, catarse hipnótica provocada pela náusea, o seguiu. Passando pela cozinha, avistou uma grande fruteira de ferro, pesada, e com ele ainda de costas, proferiu o golpe lhe partiu a cabeça. Ele gritou um grito seco, curto, e foi se esvaindo em sangue na cozinha.

“Se Dona Catita visse isso ficaria uma fera e eu teria que limpar agora”, pensava enquanto via o homem agonizar em sua frente, cabeça inclinada para a esquerda, como que para ver com mais atenção. Dona Catita apareceu e, vendo a cena, gritou histericamente. “Não se estrepa quem quieto fica”, pensou Josefa, ainda sem saber o que significava, mas era o que aconteceu com o Macedo, tinha certeza. Este sim se estrepou.

Seguiu a patroa quarto adentro. Já com seus quase 60 anos, pouco pôde fazer para conter a fúria e a força de Josefa. Num baque inclemente contra a têmpora da patroa, fez-se-lhe justiça, que caiu já desfalecida sobre a grande cama de casal.

Os gritos de horror foram sentidos pela vizinhança e logo a polícia chegou. O porteiro informou quem ali vivia. No apartamento os policiais encontraram Macedo estirado na cozinha; Dona Catita no quarto do casal. Abriram a porta do quarto de Lígia e encontraram Josefa sentada, servindo chá para as bonecas que ainda habitavam o cômodo, cantarolando uma música qualquer com voz de criança.

Viram as mãos ensanguentadas da mulher catatônica.

Tentaram dialogar. Chamaram, sem resposta. Tentaram uma e outra e outra vez.

Alguém perguntou há quanto tempo ela trabalhava para os Macedo. Por fim, falou:

- Desde 89. Isso dá quanto tempo?

- Vinte e oito anos.

- Então é isso. Vinte e oito anos.

- Você sabe dizer o que aconteceu aqui hoje?

Ela parou de servir chá para as amigas bonecas. Sorriu para um dos policiais, que lhe apontava uma arma com as mãos trêmulas. Ela fez menção de levantar-se, para ser rechaçada veementemente pelos policiais.

Obedecer, no entanto, já não era mais uma de suas virtudes.

Ignorando os avisos, colocou a mão por trás das costas, e no movimento de retorná-la à frente, levou o tiro fatal no peito.

Caiu sobre as bonecas, como se elas a abraçassem.

Nas mãos, em vez de outra arma, ela segurava com o rigor que a morte lhe tirava o bilhete do velho motorista de ônibus do Jequitinhonha, um tanto rasgado, amarelado, sua única lembrança de que neste mundo houve amor destinado a ela, sem preço nem cobrança, puro e infantil como o chá que servia até há pouco.

***

Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça. Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e personagens fascinantes.

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