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Feijão, orgulho e resistência

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Escrito por Gabriel Galo

Diz a lenda da mitologia africana que havia um espelho entre o mundo espiritual e o mundo material. Havia apenas uma verdade refletida e todos cuidavam para que o espelho permanecesse intacto. Foi então que a jovem Mahura, enquanto pilava inhames, quebrou o espelho. Desesperada, a jovem foi ter com Olorum, ser supremo, que a ouviu atentamente. Ao final, ele declarou que por conta da quebra do espelho, a partir daquele dia, não existiria mais verdade única. Concluiu ele “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho em qualquer parte do mundo, já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho espelha sempre a imagem do lugar onde ele se encontra.”

Desapercebidos pela velocidade do mundo que evolui, calçamos sapatos. Os cacos do espelho, antes não despercebidos quando sangravam os pés que lhes pisavam, passaram a, em fragmentos, impregnar-nos nas solas e na alma. A verdade se volta para o próprio umbigo. O um é a verdade.

Do espelho aos cacos e dos cacos ao pó.

A verdade se distorce e é confundida com material mundano qualquer. Como separar o que é espelho do que é mácula?

Surgiu, assim, a figura da pós-verdade: o que parece ser importa mais do que o que é. Encontrou seu reduto nas redes sociais, onde a pose é pensada, a espontaneidade é escanteada e o palanque é armado para que a mentira seja contada com ares de cotidiano.

“O todo sou eu.” Gaba-se o ser autointitulado centro do universo atrás da tela.

E se ele é o todo, o diferente deve ser execrado.

Quando o motivo da discórdia é contextualizado historicamente e sociologicamente, sedimentado por séculos de discriminação, ainda mais forte é a doutrinação. O ser é programado como rato de laboratório para cuspir sem pensar o que lhe impingem. Atinge-se o auge da dicotomia: adora-se um eu que não existe como indivíduo, mas uma formação em massa do que deveria ser.

Na Bahia toma-se forma um sincretismo religioso singular. Uma coisa é outra coisa e outra coisa é uma coisa. Na festa de Iemanjá todos os credos fazem fila para entregar rosas à mãe das águas, fazendo sinal da cruz, saudando améns e aleluias. O dia de São Jorge verteu-se em loas a Ogum. A Lavagem do Bonfim é a dissimulação de adoração a Oxalá. No advento das datas certas, criou-se no cerne da intolerância que “tudo tem sua hora”. Naquele dia pode, nos outros é surra de cansanção.

O candomblé é o resquício de cultura de povos que foram continuamente arrancados de suas origens. No Brasil, fez-se da mistura das tantas vertentes africanas existentes e transformadas em religião única.

Ser do candomblé é, portanto, um ato de resistência.

Feijão sintetiza várias faces da Bahia. Negro do recôncavo, de apelido, humilde, fia-se num símbolo de expressão de um povo – o baba num Ba-Vi – para tirar seu sustento, agradece na mesma entrevista a Deus e aos Orixás.

Renitente, ousa não fazer sua religião algo oculto. Estufa o peito orgulhoso, como deve ser, sem criar barreiras ao outro.

Postura para desespero dos ignorantes formadores de rebanho da maioria, sedentos pela exclusão alheia. Estes têm medo de se deparar com um caco maior do espelho de Olorum. Corre-se o risco do horror materializado ao olhar para seu próprio reflexo e ver-se não como divindade, mas como monstro.

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Artigo publicado em 10 de julho de 2017 no Correio da Bahia. Link aqui.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça. Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e personagens fascinantes.

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