Caderno 2 Crônicas Destaque Minhas histórias

Histórias de vô

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Escrito por Gabriel Galo

Convivi muito pouco com meu avô Leonan, pai de meu pai. Apenas recentemente fui relembrar sua história do triunfal Opala em Mutá, assim como resgatei do baú de coisas guardadas nosso x-burger em plena sexta-feira santa. Até 1996, quando eu caminhava a passos literalmente largos – cresci de 1,74m a 1,92m neste ano – ele era figura inexistente. Nos 9 meses que separaram a ida de meus pais para Campo Grande e os filhos lhes seguirem, quando ficamos na casa do Santo Antônio com minha avó, ele finalmente esteve por perto. Os termos do arranjo me serão eternamente desconhecidos, importando apenas o fato de que, durante quase um ano letivo inteiro, ele nos buscou na escola depois da aula para nos levar para a casa de minha avó. Pela manhã, uma vizinha nos dava carona. Quando algum dos dois não podia, bora de buzu que é como a Bahia se locomove – agora também de metrô.

Meu avô tinha um senso de humor muito peculiar. Era, digamos, bruto, e dotado de um sarcasmo motosserra, explicitando seus pensamentos, disfarçados em brincadeira. Do lado paterno da família, para sobreviver eram necessárias duas virtudes: resignação e malandragem. A primeira porque sempre tinha alguém tentando te jogar para baixo, coisa de parente da gravidade – a de Newton, entenda. A segunda porque sarcasmo se responde com sarcasmo, não se aceita o silêncio, para eles, símbolo da vitória. Então, se vire nos 30 desde guri!

No que evoluiu para coisas fantásticas que a Bahia possui que são as competições de duplo sentido. São duas as regras: a primeira, não caia na armadilha. A segunda, devolva um duplo sentido com direção invertida. Amizades são forjadas na base da pilhéria. Meu pai me contava, orgulhoso, de uma dada vez com Sergio Faria, o Catarro Verde em pessoa e metafísica, quando vararam dia e noite a trocar chumbos e outras mumunhas, briga para ver quem era mais escroto e perspicaz que o outro. Ria-se gostosamente.

Ah, sim, meu avô e o ano de 1996.

Descobri depois de muitos anos, nas palavras de meu pai, de uma das atividades que mais agradava a meu avô: criar com os filhos – ou netos – a viagem de férias que nunca fariam. Talvez fosse uma maneira de manter a criançada entretida por muito tempo sem lhe dar trabalho, mas a verdade é que o sacana gostava disso. Tinha mapas enormes no escritório de sua casa em Salvador, herança de quando varria o estado, e ali exibia roteiros. Sugeria algo, e falava para as crianças pensarem por onde passar, quantas noites, qual estrada pegar, afinal, era viagem de carro em família. De vez em quando voltava, perguntava o que tínhamos feito, e sempre retrucava “temos só duas semanas”, ou “mas essa estrada é perigosa”, ou “vixe, essa cidade aí não dá, já estive lá”, o que nos obrigava a recomeçar quase do zero. Nós, crianças, não entendíamos nada quando os planos viravam fumaça e vapor. Mas, qual o quê, na seguinte vez, nos debruçávamos sobre sua mesa preparando as etapas da próxima, que “dessa vez, vai”.

Nunca fomos.

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A Sacramentinas, colégio onde estudávamos todos, era de freiras, o que em absolutamente influenciou a minha decisão religiosa. Fica pertinho do Teatro Castro Alves, se utilizada a saída principal, e tem uma saída auxiliar, onde os pais e responsáveis se aglomeravam aguardando o rebento cheio de fome e sede de almoçar. Era neste portão que chegava o Monza de meu avô.

Entrávamos e seguíamos para a casa de minha avó, experimentando de sua acidez no trajeto. Se de mau humor, melhor nem que se ouça um pio. Se de bom humor, coisa boa não haveria de sair, mas nos divertíamos um monte. Contava suas histórias, sua fala enrolada de propósito para encher o saco do menino pentelho, da menina traquinas. Havia duas opções principais de caminho, cruzando ou o Dique do Tororó ou o Pelourinho, preferencialmente o segundo, mais rápido. Assim que se sobe a Ladeira do Carmo, contorna-se o Convento do Carmo, segue-se até a Cruz do Pascoal e invade-se a Rua Direita de Santo Antônio. Guardaram segredo durante muitos anos sobre essa proximidade do Pelourinho à casa de minha avó. Certa feita, neste mesmo ano de 1996, tomei, sozinho e inerte, passos lentos rumo ao Terreiro de Jesus procurando um CD para comprar, meu primeiro que seria, e trouxe de volta, triunfal, o Alfagamabetizado, de Carlinhos Brown, além do gosto de vitória por não ter sido assaltado.

O bom humor de meu avô, carinhosamente chamado de Chevolé por seu Mamede Paes Mendonça por conta de seus anos a montadora, era facilmente confundido com rabugice. Lidar com o velho era coisa para iniciados, veja bem. Odiava perfumes e, pândego, se referia a todos de que não gostava como “ô homem inútil”.

Numa dessas, chuva torrencial em Salvador, estávamos cortando o Dique do Tororó sem orixás no sentido da velha Fonte. Meu avô, sádico, avista um ponto de ônibus, onde alguns poucos se juntavam encolhidos, escapando da água que caía. Na frente, já na rua, por conta do peso dos buzus e seus para-e-anda que buraco fizeram, uma grande poça d’água. Ele acelera o Monza, muda de faixa para a mais à direita, e somente fui perceber o que estava por acontecer quando vi uma mulher desesperada, subindo no banco do ponto e se protegendo em precaução – inutilmente – em posição meio de lado, quase fetal, como escudo as mãos e uma perna, da onda que subiu encharcando e achincalhando.

Sua alegria favorita, dentro da amostra que me era possível colher, no entanto, era abusar – perturbar, azucrinar, em baianês – os flanelinhas do Pelô. Quando descíamos a ladeira do Largo do Pelourinho, invariavelmente, lá vinha o camarada, pano na mão, apontando para uma vaga disponível antes mesmo de chegarmos ao vale onde em frente se ergue a Ladeira do Carmo, à direita se abraça a Baixa dos Sapateiros e à esquerda a pobreza aumentava. Ele abaixava os vidros, reduzia a velocidade, e o danado vinha ter à sua janela, “Tem vaga ali!”, meu avô apontava com o dedo indicador para o vazio entre os carros, “Ali? Ali?” e o flanelinha, “É!”, “Ali, então?”, “Isso”, “Posso parar?”, “Pode, eu cuido!”, “Jura?”, “Pode ficar tranquilo!”, no que ele passava, acelerava um pouco e deixava o danado feito de besta para trás, retado, cuspindo em gritos e dedo do meio em riste.

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Na parte que me compete imaginar, está agora com meu pai, se divertindo no além-mundo, comendo um mocotó com gordura extra, uma rabada com caldo engrossa-sangue e pirão de enfarte, ambos virando os olhos para qualquer pedaço de bunda que lhe cruze a vista.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça. Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e personagens fascinantes.

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