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O crime compensa. Mas fingimos que não.

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Escrito por Gabriel Galo

Da importância de se observar o outro lado. Na verdade, de simplesmente olhar para o lado e ver como algumas coisas funcionam neste país. Este texto é um tapa na cara, um soco no estômago, um abridor de olhos. O morro, caracterizando o trabalhador braçal do Brasil, está fadado a uma vida de contínuo desprovimento. E não venham falar de “meritocracia” e “basta querer para sair de onde está”: quem fala algo nesta linha ou está muito mal intencionado ou é ingênuo demais – ingênuo é um eufemismo para não falar burro e ofender os carregados de privilégio. Como bem diz o gutural texto do Anderson França, existe uma divisão de forças, um cabo de guerra. Os poucos regulam os muitos, conceito antigo da Grécia, tão fortemente validado pelas ditas democracias mundo afora.

Apenas poucos possuem discernimento para decidir. Usam desta verdade para imputar seus interesses próprios como centro da máquina pública.

“O crime, em larga escala, compensa.”

Estamos tomando uma surra todo dia a dizer que é assim que o barco navega, mas nos calamos, viramos os olhos. Passamos no nosso caminho, e fingimos não ver os mendigos, os pedintes, os desprovidos; os pobres, negros, malucos, drogados, desenganados, desempregados: FODIDOS. Cabe de tudo na pobreza. Pela primeira vez em mais de década, CRESCEMOS nosso índice pessoas em situação de pobreza extrema. Povo currado minuto a minuto. Arredio, pois se sabem na iminência de não mais existirem, engolidos pelo destino ao nada.

Lembremos: deficiência mental, até boa parte deste século, tinha como uma das características demarcadoras “praticantes de pequenos delitos.”

“O crime, em larga escala, compensa.”

O crime de farda também compensa. Ou você não lembra do GCM que quebrou o braço de um morador de rua quando, atenção, ROUBAVA seus quase-nada e que agora está de volta nas ruas da capital paulista, talvez só com uma “advertência”, que na prática quer dizer “manéra aí, porra”, um tapinha nas costas e risinhos sádicos.

Ao mesmo tempo, não poderiam ser considerados loucos os praticantes de crimes em larga escala porque estariam na beira do internato a classe política inteira de uma nação. Gente que é político, traficante, lavador de dinheiro, mas se veste de amarelo querendo “o bem do Brasil.” Talvez seja esta uma questão não de singular, mas de plural: eles não querem o bem do Brasil; querem OS BENS do Brasil.

“O crime, em larga escala, compensa.”

E existe uma nação inteira de gente honesta demais, com moral demais para não perceber esta nuance. Porque se o povo, que é cego por conta da necessidade, da dureza e do correr atrás para entender que o esquema é o pedaço grande do bolo, enxergasse com olhos grandes estaríamos há muito tempo em Guerra Civil.

Adora-se um juiz que, dizem, tanto fez pela moralização do Brasil, mas que passa o marca texto preto em menções a Aécio. “Não é da alçada dele”, diz você, no que concordo, mas quando vazou áudio de Dilma e outros ministros de seu governo, podia? O fato é que não, não podia. Mas pau que dá em Chico não dá em Francisco. Porque quando se coloca o advogado do crime organizado no STF, amigos, já perdemos. Acabou. A suruba está acontecendo e querem dar ares de sexo apenas para reprodução, pudico e sem graça.

“O crime, em larga escala, compensa.”

Expurgou-se “o mal maior” do poder, enganam-se tantos por aí. Mal maior? MAL MAIOR? O mal maior opera no Legislativo, no Judiciário, no Executivo, no privado, na porra toda. O mal maior não é uma pessoa, nem um partido. O mal maior é termos uma elite sórdida. Uma elite que reclama da corrupção, mas faz gato net. Tudo muquiado, “fosse eu, ninguém nem ia ficar sabendo.” Elite que bateu foto de cara amarrada, pulando no embalo do pato amarelo na Avenida Paulista. Gente mesquinha que não quer perder a oportunidade de abrir o mundo do crime de larga escala para ela.

Porque o crime, em larga escala, compensa.

E, para os que se apoderam de desmandos, melhor que ele se mantenha inatingível. Para poder ficar de butuca, arapuca montada, para montar em cima quando o cavalo selado passar na porta.

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Aqui, o link para o texto do Anderson França que é um soco no estômago, um tapa na cara.

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Sobre o autor

Gabriel Galo

Olá! Sou o Gabriel Galo, baiano de Salvador, torcedor do Vitória, administrador formado pela FEA/USP, empresário, metido a escritor e com coisas demais na cabeça. Aqui você vai encontrar contos, crônicas, ensaios e análises políticas sobre o Brasil, a Bahia, São Paulo e personagens fascinantes.

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